• Mendonça rejeita ação contra reajuste do Bolsa Família, mas não analisa legalidade da medida

    Ministro do TSE considerou que deputado federal não tem legitimidade para questionar, na Justiça Eleitoral, ato relacionado a candidato à Presidência; decisão não avaliou se o reajuste é legal ou constitucional

    O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), rejeitou nesta quinta-feira (17) uma ação apresentada pelo deputado federal e candidato à reeleição Zé Trovão (PL-SC) contra o reajuste do Bolsa Família anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

    A decisão, porém, não analisou o mérito da discussão sobre a legalidade ou a constitucionalidade do reajuste. Mendonça rejeitou a ação por uma questão processual: segundo entendimentos anteriores do próprio TSE citados na decisão, um candidato ao cargo de deputado federal não teria legitimidade para apresentar uma ação contra um candidato à Presidência da República, já que os cargos são disputados em circunscrições eleitorais diferentes.

    ULTRAGAZ CURURUPU
    ULTRAGAZ CURURUPU

    O ministro foi sorteado como relator do caso.

    Na decisão, Mendonça deixou expressamente registrado que o reconhecimento da falta de legitimidade do autor não representa uma avaliação sobre a legalidade da medida adotada pelo governo.

    “Ressalto que o reconhecimento da ilegitimidade ativa não importa pronunciamento acerca da legalidade ou da constitucionalidade do reajuste do Programa Bolsa Família”, afirmou o ministro.

    Ação pedia suspensão do reajuste

    Na representação apresentada ao TSE, Zé Trovão alegou que seria necessária a intervenção da Justiça Eleitoral para impedir que a estrutura administrativa e os recursos públicos fossem utilizados de maneira que pudesse comprometer a igualdade de oportunidades entre candidatos.

    O deputado também havia solicitado uma decisão provisória para impedir a aplicação do reajuste até o julgamento definitivo da ação ou até o encerramento das eleições.

    Com a decisão de Mendonça, entretanto, o TSE não entrou na discussão sobre se o aumento poderia ou não ser aplicado durante o período eleitoral.

    Benefício mínimo passa de R$ 600 para R$ 691

    O reajuste anunciado pelo governo federal eleva o valor mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, uma correção de aproximadamente 15%.

    O novo valor começa a ser pago em outubro, com os primeiros pagamentos previstos para 19 de outubro, período situado entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais, caso haja segundo turno.

    Sinspumuc
    Sinspumuc

    Além do valor mínimo, o reajuste também alcança componentes adicionais do programa, de acordo com a composição das famílias beneficiárias.

    Impacto financeiro

    Segundo informações do Ministério do Planejamento, o reajuste terá impacto estimado de R$ 5,8 bilhões em 2026.

    Para 2027, a previsão apresentada pelo governo é de aproximadamente R$ 22,7 bilhões em impacto nas despesas públicas.

    O governo afirma que os recursos serão acomodados dentro do planejamento orçamentário e que a medida não representa ampliação do limite global de despesas.

    Governo nega relação com as eleições

    A medida ocorre durante o calendário eleitoral de 2026, o que provocou questionamentos de adversários políticos e levou o tema à Justiça Eleitoral.

    O governo federal, entretanto, nega que o reajuste tenha relação com as eleições.

    O Ministério da Fazenda afirma que a correção tem como objetivo recompor perdas provocadas pela inflação acumulada nos últimos anos. Nessa interpretação, a atualização não representaria propriamente um aumento real do benefício.

    O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, também negou relação entre o reajuste e o processo eleitoral.

    AGU cita autorização prevista em lei

    A Advocacia-Geral da União (AGU) também apresentou argumento jurídico em defesa da medida. Segundo o órgão, a legislação que instituiu o novo Bolsa Família, em 2023, autoriza o Poder Executivo a corrigir os valores dos benefícios e estabelece que eles não podem ser reduzidos.

    Dessa forma, o governo sustenta que existe previsão legal para a atualização dos valores.

    Decisão não encerra debate sobre o reajuste

    A decisão de André Mendonça resolve apenas a questão processual apresentada naquele processo. Como o próprio ministro destacou, não houve pronunciamento sobre a legalidade, constitucionalidade ou eventual enquadramento do reajuste nas restrições previstas na legislação eleitoral.

    O debate sobre o impacto orçamentário e a aplicação da medida também ocorre em outra frente: o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MP-TCU) solicitou ao TCU a suspensão do decreto que alterou os valores do Bolsa Família, questionando aspectos relacionados à previsão orçamentária e à estimativa do impacto financeiro.

    Assim, o reajuste permanece no centro de uma discussão que envolve política social, orçamento público, legislação eleitoral e controle das contas da União, com diferentes órgãos analisando aspectos distintos da medida.

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